quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Crônica de vários dias (vá dias!)

Os dias se passam, desorganisadamente.
Outro dia eu estava contando as migalhas e descontando o circo do pão.
Paga-se muito caro hoje em dia para não viver.
Não vive-se na maior parte do tempo; apenas faz-se.
A impressão que tenho é que o único momento em que se vive é quando se tem prazer... Com isso surge um paradoxo, pois embora viver não seja o mesmo que o mero fazer, há coisas em que o prazer está no fazer.
Fazer de manhã ao acordar,
fazer ra (arfa)
pi (tira)
da (põe)
men (vai)
te (fui!)
no almoço,
fazer na janta, fazer antes de dormir.
Sem reticências.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

À beira da vida

É simples assim, quando vi, estava tudo acabado
.
Restavam apenas as roupas rasgadas e espalhadas pelo quarto.

Só não consigo me lembrar de como tudo começou.

Há dois dias eu andava pela cidade, absorto em pensamentos, apenas tentando esquecer.

Como é que foi que deixei chegar a esse ponto?

Tudo começou tão bem, era princípo de uma vida nova, mas a felicidade parece vir acompanhada de uma boa dose de anestesia.

O corpo (cheio) de desejos se deixa adormecer em torpor... e nem sempre acordamos com vida.

Vários foram os meses, anos talvez, que passei adormecido nessa prazeirosa lassidão.

Quando me dou conta, vejo apenas os restos de uma longa noite insandecida.

Acordo então, à beira da vida, a tempo de perceber que é quase tarde de mais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Uma vida que se importa

Não sei bem por onde começar. Não sei por que, mas o que antes importava, hoje já não faz tanta falta.

Não é niilismo nem falta de sentido, é apenas um tudo que sobra e já não me preenche.

Uma vida trazida lá de fora, que já não mais me toca. Embora eu insista em estender o braço e pedir sempre mais... e continuar a receber farta esmola.

Não sei se a vida tem regras, mas sei que há leis dentro e fora dela.

Ah, se eu tivesse uma regua grande o bastante para tomar medida das minhas ações...

Sei que tudo parece muito rígido e sólido, mas as consequencias são tão fluidas e insólitas que ás vezes são como as notas de uma canção, se estendendo a longas distâncias e, por onde passam, tem-se a impressão de estarem em toda parte.

Uma vida que vem lá de fora.

Uma vida que se importa lá de fora do sentir.

Uma vida que nem sempre importa...

domingo, 20 de setembro de 2009

Con-dicion-AR!

Vive-se muito e o tempo inteiro sob o fardo peso de um constante condicionar.

Ar, dentro e fora, o tempo inteiro, quase vive-se em condições atmosféricas opressivas.

O tempo inteiro e mais uma vez, de novo o mesmo, a condição imposta, dentro e fora.

Essa co-operação, mútua vigilância, do pensamento, do corpo, do sentir e do amar.

O tempo inteiro e novamente.

Quero mais, mas não preciso.

O tempo inteiro.

Eu vivo e vejo, mas será e quando, como é que eu sinto?

Condição para isso, forma para aquilo, "é assim que se faz meu filho", "é isso aí meu irmão"... e por aí vai, mil frases de aprovação quando se faz do jeito esperado, quando não se faz como se quer, mas como se deve.

Se deve... mas não como é devido e ético, e sim em uma forma de débito implícita. Se deve ao outro, se deve ao nada, pois o outro é você, e você esperando que o outro espere, como em um jogo de espelhos em que as imagens se projetam ao infinito, refletindo o lugar nenhum.

Ah! Condicionar!
Até o ar é condicionado.
Condicionado pela respiração curta, apressada e desesperada.
Apressado por uma necessidade, sabe-se lá de quê, sabe-se lá pra quê.

Ah! Con-dicionário de palavras mudas, não faça isso, faça aquilo, pois é assim que todo mundo gosta, é assim que todo mundo quer.

Ah, eu não me importo, quero ar e não condições, prefiro condimentos e o sabor da vida.

Outro dia uma amiga me fez lembrar que o querer às vezes pode ser tão intenso que tira o gosto das coisas.

É melhor então fugir para a abstinência, disse ela meio sem fé...
Que se faça disso então um mantra, brincamos nós, amigos, para amenizar com piada essa angústia que ora ou outra também sentimos:

"abstinência, abstinência, abstinência..."

Que é para atrair exatamente aquilo que pensamos querer...

Ou será que querem por nós?
É, é assim mesmo... mesmo quando não queremos, nos querem POR-NÔS.
Mesmo que cansados e remendados, quando o que mais precisamos é de AR, e não desse CONDICION-AR, seu e nosso de cada dia.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Memória, Mémoire, Memory

Provérbios

Mémoire du mal a longue trace, mémoire du bien tantôt.
Más lembranças, deixam longos rastros, boas lembraças, curtos.

Les joyeus propos de bonne chère ne prêtent pas à consequence
palavras dita à mesa, na mesa devem ficar
all that is in the kitchen, shoould no be heard in the hall

LACERDA, Roberto Cortes de; LACERDA, Helena da Rosa Cortes de; ABREU, Estela dos Santos. Dicionário de Provérbios. Dicionário de Provérbios . Editora UNESP:2003, p. 306.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Liberdade...

Outro dia, lendo uma peça de Molière, "Le Bourgeois gentilhomme" me deparei com uns versos interessantes e que no momento me fazem pensar na veracidade de suas palavras:

"Une coeur dan l'amoureux empire,
De mille soins est toujours agité:
On dit qu'avec plaisir on languit,
on soupire;

Mais, quoi qu'on puisse dire
Il n'est rien de si doux que notre liberté."

É um francês um pouco antigo, mas experimentei uma tradução, com certa libertinagem poética:

"Um coração, no império do amor,
Por mil suplícios está sempre atormentado:
Se diz que é com prazer que nos enamoramos,
nós suspiramos;

Mas qualquer um que seja bem que iria dizer:
Não há nada tão doce como nossa liberdade."

Esse trecho é um diálogo em música, em que os interlocutores se pronunciam sobre o amor e seus prazeres e desprazeres, sendo que um se coloca a favor e outro se mostra temeroso.
Esta parte sem dúvida é a fala daquele que, de certa forma, teme o amor, pois se diz que não há liberdade mais doce do que o não amar, é porque acha caro demais o preço a se pagar.

Hoje talvez eu me coloque como esse que tem receio, pois parece às vezes que o preço é caro de mais...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Um tango talvez

Um passo, e outro tropeço. Uma forma de expressar minha libido de uma maneira quase sexual, um tango talvez.

Meu pensamento ofegante, meu corpo lateja por dentro, mas por fora quase sem vida, grita aqui dentro querendo se expressar.

Mas como dançar sem par?

Um tango talvez dançar em algum lugar, em que ninguém vai reparar... sozinho no escuro, em casa, ou subindo a escada, sem pressa que é para não topar.

Será que ela topa dançar...?

Mas não tem que ser agora, pois para essa dança não tem hora, tem a hora que tiver que ser, se tiver que ser, nessa ou em outra estória...

Um conto, um canto, um novo encanto, eu embarco nessa, um passo para lá outro para cá.

Um tango talvez...

sábado, 7 de março de 2009

Sentada no abismo

A garota está sentada na encosta, de frente para o abismo.

O horizonte à frente, mas em volta de si, fantasmas circundam em forma de pensamentos, sonhos e desilusões.

O vento sopra à beira do rochedo e o mar, lá embaixo, como um mantra embalando seus devaneios.

O céu está límpido, mas seus delírios criam uma névoa de um liláz rosáceo em sua mente e ela vê diante de si tudo o que passou.

Há um certo desespeiro calado e cálido no que sente, mas tudo à volta é tão emblemático; sentada em terra firme, mas a um passo da perdição.

Ela devia ter pouco mais de 10 anos, mas sabia tão tenre que já havia alguém que habitava lá dentro. Ela sabia que existiam coisas para além de lá fora, de fora de si mesma.

Nunca entendi porque era sempre assim tão séria, mas lá, sozinha, à beira da queda, ficava ela sorrindo silenciosa, como se soubesse de algo que não sabemos.

Sozinha e no limiar, no precipício de suas emoções - assim se sentia segura: sentada à beira do precipício...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

The heart is the mistery

I was thinking the other day that sorrow comes whenever something happens in disagreement with our expactations. It seems that the source of suffering lies in our struggle against what life presents to us.

It is a most intriguing fact, but many times we seem to be running in the exact opposite direction of what best life has to offer us. Many times we simply want something because it matches whatever desires and dellusions are conditioned into our minds.

Life is wise and without error, and it could only take us to the most suitable of the places. Always. But we hardly see it. We do not believe it. We do not accept it.

But how could we open our eyes to what life is trying to show us?

Maybe life talks to us in such a misterious way that only the heart can understand. But the heart, though a part of ourselves, seems to be a mistery greater than life.

The heart is something we just cannot explain.

But the heart knows it all. Because no heart is apart from any other heart. When we act with the heart we can see what is the right path to follow, where is the right place to go.

The heart is the highway that leads us straight away to truth.

Truth is life,
and there is no life that is not in the heart.

Truth is life,
truth is love...
heart is the mistery.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Se eu soubesse o seu nome

Se eu soubesse seu nome...

Se eu soubesse seu nome, talvez não lhe caísse tão bem quanto aquele que penso ser o seu.

Troquei contigo uns olhares furtivos, umas poucas palavras, mas me lembro mais do deslize ondulado de seus longos cachos castanhos do que de sua face, que é sem dúvida tremendamente bela.

Eu te chamaria de Gabriela, nem tanto porque ousaria repetir a rima óbvia do seu doce gosto, mas porque me lembro do teu rosto moreno claro, misto de ingenuidade e malícia, que faz lembrar a daquela que é de cravo e canela.

Sei que quando me olha sabe o que eu penso. Mas há um pacto silencioso nesse nosso laço sem nome, um pacto de juras não ditas que exigem esse mútuo consentimento proibido e não consumado.

O amor que fica assim, perfeito, imaculado pelo toque, mas preenchido pelo sublime desejo de não ser realizado. Admirar-te assim calado já me basta, porque sabemos que não é lícito o que nossos olhos entregam.

Não é lícito porque meu amor, de carne e de desejo, é difuso nos amores furtivos, aqui e ali, onde encontro quem queira uma faceta de mim.

Em três amores me divido, mas meu amor verdadeiro é por ti, aquela que não conheço o nome, aquela que quer e não pode, mas que me deixa saber, assim mesmo.

Não é lícito porque por hora pertences a outro, e eu do momento que te vi já soubera, mas sei que agora também és minha, em pensamento. E tu disso também sabes...

Talvez, se eu soubesse teu nome, não sei se ficaria o encanto. Mas se viermos um dia a nos possuirmos de fato, não quero que me diga a verdade, quero que seja apenas fêmea, sem identidade, sem qualquer veleidade ou decepção. Deixe que falem os corpos, deixe que fale a sagrada perversão.

Quero amar-te, sem saber quem és. Mesmo que meu corpo venha a conhecer-te os mais íntimos recônditos de teu prazer, não quero saber nem mesmo da menor palavra que leve aos enganos daquilo que pensamos ser.

Que minha paixão sem nome seja o que tiver de ser. Platônica, catatônica ou puro prazer. Não me importa. Você despertou algo antigo dentro do meu ser.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Amizade, amor. Amar, amargar

Relacionar-se é inevitável, mesmo na mais profunda reclusão - não dizem por aí que o mais difícil é ser companhia de si mesmo? Pelo menos para a maioria de nós a solidão é companhia indesejável. Para outros a solidão é uma meta; saber estar em companhia de si.

Tenho impressão, às vezes, de que o primeiro passo para a solidão é saber estar em companhia do outro. Pode parecer estranho pensar assim, ainda mais se pensarmos, erroneamente, que companhia consiste simplesmente em estar junto.

Vejo muitos grupos de amigos pelas ruas, nos shoppings e bares, e o que sinto é que os que fazem parte do grupo pouco fazem companhia um ao outro; parecem apenas desempenhar papéis, para poder 'se encaixar'.

Por muito tempo vivi em profunda circunspecção. Nunca tive muitos amigos e quando tive a experiencia de ter um grupo grande de amizades, por um breve período, foi uma experiência que compensou apenas pelo que pude aprender sobre o que não é amizade.

Hoje tenho poucos amigos, e o mais normal é que quando vou vê-los, visito-os individualmente e não raro temos longas e íntimas conversas. Quando estou em presença deles, me sinto em companhia de alguém.

O que sinto é que os amigos, enquanto poucos, são doces e duradouros laços, que se soltam suavimente quando é hora de partir.

Aos amores, que os temos ao longo da vida, esses são laços mais delicados, paradoxalmente profundos e tênues, fazendo-nos lembrar bem de quão sutil é o limiar entre a lucidez e a loucura.

Especialmente quando se está apaixonado.

Compartilhar a intimidade, uma experiência da qual dificilmente se sai ileso e o desejo de tornar eterno o vínculo amoroso é o que torna mais angustiante e presente a sensação do efêmero.

Amar é um grande risco que se corre.

Mas o engraçado é que quando passa a paixão, por uma desilusão qualquer, fica só a impressão de tempo perdido. Um gosto amargo e frio que se dá, quando o fogo se apaga e não se converte em amor.

Amar é amargar. Mas é um amargo que se converte no mais puro prazer quando sublimado e realizado.

Amar é amargar quando não se realiza quando demasiado pensado, calculado e poupado.

Amar é gastar todos os cartuchos, é se esvair sem fôlego e alimentar-se da própria exaustão.

Por isso é que amo aos amigos, porque talvez já tenhamos passado juntos por todas as agrúrias e o amargo já é o doce que passou pelo teste do fogo e agora é só brisa, de reconforto e companheirismo.

Amizade é amor. Amar, Amargar...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Dias Nublados

Dias nublados são enigmáticos. A primeira coisa que evocam é uma certa melancolia serene, mas é curiosa a maneira em que o sol se mete entre as nuvens, é como se o céu tentasse abrir um breve e discreto sorriso.

Um misto de tristeza e alegria parece refletir o estado de ânimo da natureza e das pessoas, especialmente num dia de quietude mundial.

Alguns ousam sair à rua, outros até se animam com o pedacinho de sol que aparece aqui e ali.

A rua em geral fica vazia, mas se vamos ao mercado sempre o encontramos cheio. Creio que é porque lá nunca faz sol, nunca faz sombra, nunca cai a chuva.

Eu olho pela janela e vejo o concreto do muro em meio às grades de proteção. Só um pouco mais acima vejo um pedacinho do céu, de um furtivo azul e cinza.

Talvez aqui do lado de dentro, eu possa escolher que pedaço lá fora desejo ver através da janela. Mesmo em um dia nublado, em meio ao mar de cinza esbranquizado, há um pedacinho de azul pra se ver.

Dias nublados são assim, podem aquecer ou esfriar o coração. Mas se tivermos um pouquinho de paciência e atenção podemos observar o céu a sorrir benevolente de tudo o que se passa aqui em baixo.