quinta-feira, 15 de outubro de 2009

À beira da vida

É simples assim, quando vi, estava tudo acabado
.
Restavam apenas as roupas rasgadas e espalhadas pelo quarto.

Só não consigo me lembrar de como tudo começou.

Há dois dias eu andava pela cidade, absorto em pensamentos, apenas tentando esquecer.

Como é que foi que deixei chegar a esse ponto?

Tudo começou tão bem, era princípo de uma vida nova, mas a felicidade parece vir acompanhada de uma boa dose de anestesia.

O corpo (cheio) de desejos se deixa adormecer em torpor... e nem sempre acordamos com vida.

Vários foram os meses, anos talvez, que passei adormecido nessa prazeirosa lassidão.

Quando me dou conta, vejo apenas os restos de uma longa noite insandecida.

Acordo então, à beira da vida, a tempo de perceber que é quase tarde de mais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Uma vida que se importa

Não sei bem por onde começar. Não sei por que, mas o que antes importava, hoje já não faz tanta falta.

Não é niilismo nem falta de sentido, é apenas um tudo que sobra e já não me preenche.

Uma vida trazida lá de fora, que já não mais me toca. Embora eu insista em estender o braço e pedir sempre mais... e continuar a receber farta esmola.

Não sei se a vida tem regras, mas sei que há leis dentro e fora dela.

Ah, se eu tivesse uma regua grande o bastante para tomar medida das minhas ações...

Sei que tudo parece muito rígido e sólido, mas as consequencias são tão fluidas e insólitas que ás vezes são como as notas de uma canção, se estendendo a longas distâncias e, por onde passam, tem-se a impressão de estarem em toda parte.

Uma vida que vem lá de fora.

Uma vida que se importa lá de fora do sentir.

Uma vida que nem sempre importa...

domingo, 20 de setembro de 2009

Con-dicion-AR!

Vive-se muito e o tempo inteiro sob o fardo peso de um constante condicionar.

Ar, dentro e fora, o tempo inteiro, quase vive-se em condições atmosféricas opressivas.

O tempo inteiro e mais uma vez, de novo o mesmo, a condição imposta, dentro e fora.

Essa co-operação, mútua vigilância, do pensamento, do corpo, do sentir e do amar.

O tempo inteiro e novamente.

Quero mais, mas não preciso.

O tempo inteiro.

Eu vivo e vejo, mas será e quando, como é que eu sinto?

Condição para isso, forma para aquilo, "é assim que se faz meu filho", "é isso aí meu irmão"... e por aí vai, mil frases de aprovação quando se faz do jeito esperado, quando não se faz como se quer, mas como se deve.

Se deve... mas não como é devido e ético, e sim em uma forma de débito implícita. Se deve ao outro, se deve ao nada, pois o outro é você, e você esperando que o outro espere, como em um jogo de espelhos em que as imagens se projetam ao infinito, refletindo o lugar nenhum.

Ah! Condicionar!
Até o ar é condicionado.
Condicionado pela respiração curta, apressada e desesperada.
Apressado por uma necessidade, sabe-se lá de quê, sabe-se lá pra quê.

Ah! Con-dicionário de palavras mudas, não faça isso, faça aquilo, pois é assim que todo mundo gosta, é assim que todo mundo quer.

Ah, eu não me importo, quero ar e não condições, prefiro condimentos e o sabor da vida.

Outro dia uma amiga me fez lembrar que o querer às vezes pode ser tão intenso que tira o gosto das coisas.

É melhor então fugir para a abstinência, disse ela meio sem fé...
Que se faça disso então um mantra, brincamos nós, amigos, para amenizar com piada essa angústia que ora ou outra também sentimos:

"abstinência, abstinência, abstinência..."

Que é para atrair exatamente aquilo que pensamos querer...

Ou será que querem por nós?
É, é assim mesmo... mesmo quando não queremos, nos querem POR-NÔS.
Mesmo que cansados e remendados, quando o que mais precisamos é de AR, e não desse CONDICION-AR, seu e nosso de cada dia.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Memória, Mémoire, Memory

Provérbios

Mémoire du mal a longue trace, mémoire du bien tantôt.
Más lembranças, deixam longos rastros, boas lembraças, curtos.

Les joyeus propos de bonne chère ne prêtent pas à consequence
palavras dita à mesa, na mesa devem ficar
all that is in the kitchen, shoould no be heard in the hall

LACERDA, Roberto Cortes de; LACERDA, Helena da Rosa Cortes de; ABREU, Estela dos Santos. Dicionário de Provérbios. Dicionário de Provérbios . Editora UNESP:2003, p. 306.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Liberdade...

Outro dia, lendo uma peça de Molière, "Le Bourgeois gentilhomme" me deparei com uns versos interessantes e que no momento me fazem pensar na veracidade de suas palavras:

"Une coeur dan l'amoureux empire,
De mille soins est toujours agité:
On dit qu'avec plaisir on languit,
on soupire;

Mais, quoi qu'on puisse dire
Il n'est rien de si doux que notre liberté."

É um francês um pouco antigo, mas experimentei uma tradução, com certa libertinagem poética:

"Um coração, no império do amor,
Por mil suplícios está sempre atormentado:
Se diz que é com prazer que nos enamoramos,
nós suspiramos;

Mas qualquer um que seja bem que iria dizer:
Não há nada tão doce como nossa liberdade."

Esse trecho é um diálogo em música, em que os interlocutores se pronunciam sobre o amor e seus prazeres e desprazeres, sendo que um se coloca a favor e outro se mostra temeroso.
Esta parte sem dúvida é a fala daquele que, de certa forma, teme o amor, pois se diz que não há liberdade mais doce do que o não amar, é porque acha caro demais o preço a se pagar.

Hoje talvez eu me coloque como esse que tem receio, pois parece às vezes que o preço é caro de mais...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Um tango talvez

Um passo, e outro tropeço. Uma forma de expressar minha libido de uma maneira quase sexual, um tango talvez.

Meu pensamento ofegante, meu corpo lateja por dentro, mas por fora quase sem vida, grita aqui dentro querendo se expressar.

Mas como dançar sem par?

Um tango talvez dançar em algum lugar, em que ninguém vai reparar... sozinho no escuro, em casa, ou subindo a escada, sem pressa que é para não topar.

Será que ela topa dançar...?

Mas não tem que ser agora, pois para essa dança não tem hora, tem a hora que tiver que ser, se tiver que ser, nessa ou em outra estória...

Um conto, um canto, um novo encanto, eu embarco nessa, um passo para lá outro para cá.

Um tango talvez...

sábado, 7 de março de 2009

Sentada no abismo

A garota está sentada na encosta, de frente para o abismo.

O horizonte à frente, mas em volta de si, fantasmas circundam em forma de pensamentos, sonhos e desilusões.

O vento sopra à beira do rochedo e o mar, lá embaixo, como um mantra embalando seus devaneios.

O céu está límpido, mas seus delírios criam uma névoa de um liláz rosáceo em sua mente e ela vê diante de si tudo o que passou.

Há um certo desespeiro calado e cálido no que sente, mas tudo à volta é tão emblemático; sentada em terra firme, mas a um passo da perdição.

Ela devia ter pouco mais de 10 anos, mas sabia tão tenre que já havia alguém que habitava lá dentro. Ela sabia que existiam coisas para além de lá fora, de fora de si mesma.

Nunca entendi porque era sempre assim tão séria, mas lá, sozinha, à beira da queda, ficava ela sorrindo silenciosa, como se soubesse de algo que não sabemos.

Sozinha e no limiar, no precipício de suas emoções - assim se sentia segura: sentada à beira do precipício...